08/07/08

Foto-Choque, por Platinado

O Expresso publicou na sua última edição uma entrevista de páginas centrais com a Ministra da Educação da República. É das tais que não li nem vou ler - não estou propriamente interessado em ouvir as explicações de sua excelência para os resultados mágicos da Matemática Contemporânea Versão 2008. Não li, mas vi. Porque esta peça jornalística não é pra ler, mas é para ver. Esta peça vale pelos bonecos, isto é , pelo excelente trabalho fotográfico do repórter Tiago Tiago Miranda. Reproduzo aqui aquela que é para mim a melhor foto da série, mas quem quiser sentir a experiência do enjoo completo pode ver tudo em A Educação do Meu Umbigo (http://educar.wordpress.com/).

A primeira coisa que me chama a atenção nesta foto é a sua incongruência. Tudo aqui é incoerente. Sem falsas ironias é uma peça digna de figurar no recente volume coordenado por Umberto Eco, a História do Feio. Nesta obra Eco percorre as diferentes manifestações do Feio a longo da História e esta peça de Tiago Miranda enquadra-se como uma luva nas secções acerca do disforme, do horrível. Advirto desde já que não pretendo fazer ironia nem dizer mal do modelo da foto: falo apenas sobre uma foto na sua qualidade de produto estético.

A primeira incongruência é a da pose. A modelo ensaia uma pose de Diva não tendo obviamente corpo nem expressividade para tal. O resultado é uma quase deformidade. Uma pessoa com aqueles altos níveis de celulite não pode ensaiar uma foto assim, de perna traçada como se fosse a Sharon Stone na célebre cena do Instinto Fatal. O choque é flagrante porque a forma da pose é um arquétipo comum, mas o conteúdo - a adiposidade do modelo - acaba por nos ferir. O efeito é artístico. Embora mais subtil, não tão radical, é uma nova versão de alguns dos jogos explorados pela fotógrafa americana Cindy Sherman com os seus modelos repugnantes e artificiais. como este, por exemplo:O reforço desta primeira incongruência advém da roupa escolhida: o vestido preto, o decote discreto e o colar, a saia pelo joelho, mais uma vez arquétipos da coqueterie sofisticada. Podemos perfeitamente imaginar que a foto sairia discreta com outra roupa menos sensual/executiva, mais de acordo com o modelo. Assim só vemos reforçados os significantes de ruptura do nível anterior. E a noção de incongruência é maior. Quanto mais olhamos esta foto mais nos sentimos nostálgicos da mulher que lá não está, como se toda esta forma tivesse sido despojada/roubada do seu verdadeiro/adequado conteúdo.

O terceiro nivel de desajustamento é produzido pelo carácter institucional da personagem. Sabemos que é uma ministra. Da educação, ainda por cima, com toda a carga moral que isso tem. Conhecemos a personagem, habitualmente sisuda, carrancuda, tensa...E mais uma vez sentimos a incongruência da pose, da descontração que contrastam com o peso institucional da personagem. O efeito é mais uma vez devastador. Perguntamo-nos como é que o fotógrafo do Expresso conseguiu captar esta imagem surrealista. Será uma foto da Maria de Lurdes real ou uma foto de um sonho (freudianamente: de um desejo) da Maria de Lurdes a sonhar com a Maria de Lurdes?

E ainda há a magnífica economia do cenário, os fundos austeros e escuros para não nos distrairmos e nos concentrarmos na expressividade (falhada) da modelo. Repare-se no batom, num tom de vermelho velho-esbatido, tentativa desesperada de dar vida a um rosto e a um sorriso amarelos. Vem reforçar, mais que qualquer outro elemento de pormenor, a impressão de superficialidade da foto. O batom e o excesso de creme que se nota na tez polida da face de vaga reminiscência gótico-depressiva. É ainda de incongruência que falo...

Resta-me uma pergunta: como ler o olhar do fotógrafo Tiago Miranda? Foi um ingénuo que captou, sem querer, a vacuidade total de uma personagem sem dimensão para o voo (estético) que ensaia? Ou pelo contrário, foi um verdadeiro fotógrafo que soube captar com o cinismo dos bons artistas a verdade que está para além da aparência? Tiago Miranda é um Goya que ridiculariza a realeza do seu tempo, uma Paula Rego divertida a fixar para a história a futilidade de Jorge Sampaio (sobre este tema ver outro texto do tapor: http://tapornumporco.blogspot.com/2006/06/paula-rego-goya-e-o-cabea-de-cenoura.html)?
Ou um simples propagandista que pretendeu glorificar a Ministra e acabou traído pela força das suas próprias fotos? Não sei.

Seja como for este Tiago Miranda é um óptimo fotógrafo. Pode ser que ele não tenha o cinismo dos grandes, que seja inocente como um fotógrafo de casamento. Mas que o seu olhar tem qualquer coisa de perturbador, tem. Talvez estejamos mesmo perante o caso de um criador que se vê ultrapassado pela criação. Quando lhe pediam para explicar a sua música o grande Carlos Paredes dizia que não sabia, que apenas sabia tocar. Talvez Miranda seja um desses brilhantes ingénuos... Ou talvez não, talvez tenha a consciência plena do que mostra.Pra já está de parabéns: o seu trabalho vai muito para lá da vulgar foto de jornal.

5 comentários:

Anónimo disse...

Excelente posta.
Entretanto, a Madre Teresa de Calcutá é oficialmente a Melhor Mulher do Mundo, batendo ícones imortais como a Ana Malhoa, a Joahnsen ou a Marilyn, de acordo com a sondagem vinculativa que decorreu no tapor.
Se alguém se lembrar de alguma sondagem, força.

Anónimo disse...

Quem é que a milu quis imitar na foto-choque?
a) A ana malhoa
b) A Sharon stone
c) O menino de ouro
d) o injinheiro
e) a carolina salgado
f) o valter lemos

Anónimo disse...

eu axo que, sem dúvida, tentava imitar a carolina... embora sem sucesso!!.. a outra, apesar de tudo fica-lhe a léguas.... tem menos celulite..!

Anónimo disse...

E a carolina também não mente tanto, anónimo :)

Anónimo disse...

eu ia-le.
tou com córentas e tais, mazinda ia a tempo de le dar
pó estatuto da carreira indecente.
ia-le, ia-le.